IMAGINE — O PT QUE CONTINUO IMAGINANDO Uma caminhada pelo fim da escala 6 por 1 e os fragmentos de um sonho que permanece vivo
IMAGINE
John Lennon
O PT QUE CONTINUO IMAGINANDO.
Uma caminhada pelo fim da escala 6 por 1 e os fragmentos de um sonho que permanece vivo
Quando John Lennon escreveu Imagine, não estava descrevendo o mundo que existia. Estava falando do mundo que ainda precisava ser construído.
Há mais de quarenta anos, continuo imaginando um Partido dos Trabalhadores onde as pessoas se respeitam. Um PT onde a história de cada companheiro e companheira vale mais do que qualquer circunstância momentânea. Um PT onde o afeto sobreviva aos desencontros. Onde o companheirismo sobreviva ao tempo. Onde as divergências não sejam maiores do que os sentimentos que temos uns pelos outros.
Ontem, caminhando pelas ruas do Recife, encontrei muitos fragmentos desse PT.
Saímos de Olinda com bolsa térmica, água mineral, biscoito e fruta. Animados como se estivéssemos indo para o primeiro ato das nossas vidas. O ônibus demorou. Chegamos atrasados. Mas chegamos. E fomos brincando pelo caminho que precisávamos chegar a tempo do helicóptero fazer a contagem do povo.
Quando finalmente nos misturamos à multidão na Rua da Aurora, percebemos que aquela caminhada não tinha começado ali. Ela já vinha acontecendo há décadas. Em cada reunião. Em cada campanha. Em cada bandeira carregada. Em cada conversa sobre um Brasil mais justo.
Ali estavam trabalhadores, estudantes, aposentados, jovens e veteranos de muitas lutas. Todos reunidos por uma pauta simples e profundamente humana... o fim da escala seis por um.
Uma pauta que toca especialmente aqueles que passaram a vida trabalhando quando os outros descansavam. Aqueles que sabem o valor de um domingo em família. Aqueles que conhecem o peso de uma jornada que ocupa quase todo o tempo da vida.
Enquanto caminhávamos em direção ao Marco Zero, uma brisa vinda do Rio Capibaribe atravessava a Ponte Duarte Coelho e refrescava o rosto de quem seguia na marcha. Em alguns momentos eu apenas observava. Observava as bandeiras. Observava os abraços. Observava os reencontros.
Houve reencontros.
E houve também o outro lado do mosaico. Quem oferece água mineral numa caminhada e ouve uma recusa por bactéria... entende o que estou dizendo. Quem levanta os braços para receber uma brisa do rio e ouve um comentário que não veio do vento... também entende. São momentos isolados. Mas existem. E merecem reflexão, não silêncio. Porque o sonho de um PT onde todos se respeitam inclui exatamente esses momentos.
Ao longo da vida nos aproximamos e nos distanciamos das pessoas. Às vezes nos silenciamos. Às vezes nos magoamos mutuamente. Às vezes as circunstâncias nos colocam em caminhos diferentes. Mas os sentimentos verdadeiros não desaparecem. Eles apenas se recolhem. Permanecem vivos em algum lugar da memória.
Ontem reencontrei companheiros e companheiras com quem compartilhei diferentes momentos da caminhada política. Nos abraçamos. Conversamos. Tiramos fotografias. Caminhamos juntos.
E percebemos algo simples... mesmo quando não estamos lado a lado, continuamos caminhando na mesma direção.
Nunca participei da política em busca de cargos. Minha vida profissional sempre esteve na comunicação, no trabalho, na iniciativa privada. Minha militância sempre nasceu da convicção.
Por isso jamais precisei abandonar minha consciência para agradar quem quer que fosse.
Aprendi a admirar pessoas pela coerência. Por educadoras que se tornaram vozes do povo nos lugares mais altos da república. Por histórias de vida que viraram mandatos de luta. Pela disposição de permanecer na caminhada mesmo quando os caminhos se tornam difíceis.
São essas pessoas que mantêm viva a esperança.
São essas histórias que nos fazem acreditar que um mundo melhor não é apenas um sonho distante.
E talvez seja exatamente por isso que Imagine, de John Lennon, continua fazendo sentido.
Não porque o mundo seja perfeito.
Não porque o PT seja perfeito.
Mas porque continuamos capazes de imaginar algo melhor.
Como em qualquer construção humana, ainda existem desencontros. Ainda existem silêncios. Ainda existem momentos que nos lembram que o sonho não está concluído. Mas ontem eles foram menores do que os abraços.
Porque foram superados por algo maior.
Pelo companheirismo. Pelo respeito. Pela capacidade de continuar reconhecendo no outro um companheiro de caminhada, mesmo quando pensamos diferente.
Continuo acreditando no mesmo sonho que me acompanha há mais de quarenta anos.
Não um PT perfeito.
Mas um PT capaz de ser maior do que as suas diferenças.
Um PT onde os abraços sobrevivem ao silêncio.
Um PT onde continuamos caminhando na mesma direção, mesmo quando a vida nos coloca temporariamente em caminhos diferentes.
Talvez seja esse o verdadeiro significado de Imagine, de John Lennon.
Não esperar que o mundo perfeito exista.
Mas continuar ajudando a construí-lo.
Um passo de cada vez.
Uma caminhada de cada vez.
Um abraço de cada vez.
Fernando Kabral
Olinda, Pernambuco
25 de maio de 2026
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