Militância se constrói ouvindo: uma reflexão sobre pertencimento, formação e construção coletiva
Militância se constrói ouvindo: uma reflexão sobre pertencimento, formação e construção coletiva
Companheir@s,
Quero deixar uma reflexão.
Acho o movimento bonito e concordo com a importância da mobilização. Inclusive participei dele no início. Mas, com o tempo, comecei a enxergar algumas distorções que me fizeram repensar minha participação.
Nós já temos lideranças políticas de esquerda que atuam exatamente dessa forma: falam, orientam, pedem mobilização, mas na maioria das vezes ignoram a construção coletiva. Não precisamos criar mais uma corrente dentro da própria rede repetindo esse mesmo modelo.
E isso não tem relação com ser de esquerda, de direita, de centro, para cima, para baixo, em pé ou deitado. Movimento é movimento. Sem a participação da militância na construção das decisões, a gente deixa de ser militância e vira gado.
Uma militância de verdade não é feita apenas para compartilhar conteúdos e obedecer orientações. Ela é construída junto. Quem está na base também pensa, analisa, conhece a realidade da sua cidade, do seu estado e da sua região. O Brasil é enorme. Existem problemas parecidos, mas nunca iguais.
Quando uma coordenação quer liderar uma rede de militância digital, ela também precisa ouvir seus militantes. Não basta apenas distribuir tarefas. Não somos robôs nem gado. Temos opinião, experiência e muito a contribuir.
Existe outro ponto que me preocupa profundamente: quem está na ponta assume riscos reais. A militância não acontece apenas atrás de uma tela. Ela também acontece nas ruas.
No campo físico, quem faz política pode sofrer agressões, levar porrada, ser vítima de atentados e, em casos extremos, perder a própria vida. No campo virtual, pode sofrer banimentos, cancelamentos, ataques coordenados e enfrentar verdadeiros exércitos do silêncio, no sentido de um grande número de pessoas silenciadas, que perderam o senso crítico e passaram a usar o silêncio como ferramenta perigosa, ajudando a transformar muitos militantes em replicadores automáticos, robóticos, quase como gado, perpetuando exatamente o que há de mais degradante na política partidária.
Mesmo assim, quando alguma coisa acontece com quem está na base, a sensação é de que cada um precisa segurar sua própria onda. Antigamente, muitos militantes tinham a percepção de que, se fossem detidos durante uma manifestação ou enfrentassem algum problema relacionado à atuação política, rapidamente apareceria um advogado ligado ao partido ou à organização para prestar apoio. Hoje, a impressão é outra: o militante é chamado para executar a tarefa, mas, quando enfrenta as consequências, acaba ficando sozinho.
Por isso digo que não basta convocar pessoas para a linha de frente. Quem chama também precisa assumir responsabilidade por quem atende ao chamado. Soldado não pode ser lembrado apenas na hora da batalha e esquecido quando cai em combate. Essa é uma metáfora, mas ela representa situações humanas, vividas por pessoas de carne e osso.
E existe uma consequência que muitas lideranças parecem ignorar: soldado que não é valorizado deixa de sentir pertencimento. Quando uma pessoa percebe que sua voz não importa, que sua experiência não é ouvida e que seu compromisso só é lembrado na hora de executar ordens, ela naturalmente procura outro lugar onde seja respeitada. Ninguém permanece por muito tempo onde é tratado apenas como instrumento.
Quero deixar claro que faço esse comentário justamente porque reconheço a importância desse movimento. Não estou diminuindo o trabalho de ninguém. Pelo contrário. Sei o quanto esse tipo de organização é necessário e o quanto a disputa política nas redes sociais se tornou estratégica. Não é o primeiro movimento desse tipo que acompanho. Participo de outras iniciativas semelhantes e vejo que todas nasceram da necessidade de enfrentar uma realidade cada vez mais complexa.
Mas exatamente por reconhecer sua importância é que acredito que precisamos dar o próximo passo.
Não basta mobilizar. É preciso formar. Não basta distribuir tarefas. É preciso preparar quem vai executá-las.
Durante muito tempo fomos nos acostumando a resolver urgências. Um curso aqui, uma formação ali, uma resposta para apagar um incêndio político. Enquanto isso, o cenário continua mudando em velocidade muito maior do que a nossa capacidade de formar novos militantes. A disputa política de hoje exige preparo técnico, preparo emocional, leitura crítica e capacidade de compreender estratégias de comunicação e desinformação. Não basta pedir engajamento. É preciso construir consciência política de forma permanente.
Também é preciso compreender quem está na ponta.
Há dias em que uma pessoa pode cumprir várias tarefas. Em outros, ela está trabalhando, estudando, cuidando da família ou simplesmente tentando sobreviver. Liderar também significa conhecer a realidade dos seus militantes. Não é apenas enviar comandos diariamente. É saber quem pode caminhar mais rápido, quem precisa de apoio e quem, naquele momento, só consegue contribuir um pouco. Liderança também é escuta.
Outra questão importante é que muitos de nós enfrentamos diariamente ambientes hostis. Não estamos falando apenas de publicar conteúdo. Estamos falando de enfrentar discursos de ódio, ataques pessoais, extremismos e conflitos políticos dentro das próprias redes sociais. Quem está nessa linha de frente conhece um lado da política que raramente aparece nas fotografias e nos vídeos bem produzidos das redes. Existe uma diferença enorme entre desfilar no Instagram e enfrentar diariamente o ambiente mais duro da disputa política digital.
Por isso continuo aplaudindo este movimento. Acho que ele é necessário e presta um serviço importante. Justamente por acreditar nele, acredito que ele pode evoluir ainda mais.
A realidade de quem milita em Belém do Pará não é a mesma de quem está em Manaus, em Vilhena ou em Campo Grande. Precisamos ter essa consciência territorial. Cada região enfrenta desafios próprios e, em muitas delas, a extrema direita atua com muito mais intensidade. Ouvir quem está na ponta fortalece toda a rede.
Criem um canal permanente de diálogo com seus militantes.
Criem um espaço onde os soldados também possam falar.
Escutem quem está na ponta.
Escutem quem conhece a realidade de cada cidade, de cada estado e de cada região.
Transformem a inteligência coletiva da militância em parte da estratégia.
Nenhum comandante conhece sozinho todos os campos de batalha. Mas milhares de soldados, espalhados pelo país inteiro, conhecem realidades que nenhuma coordenação conseguirá enxergar sozinha.
Como costuma dizer uma de nossas grandes inspiradoras da política: o tempo é curto. As eleições já estão à porta. Não temos mais o luxo de desperdiçar a inteligência coletiva da nossa própria militância.
Talvez esteja aí o próximo grande passo da militância digital brasileira: deixar de ser apenas uma rede de distribuição de tarefas para se tornar também uma rede permanente de escuta, formação e construção coletiva.
Porque uma liderança que fala e não escuta corre o risco de repetir exatamente aquilo que critica. E uma militância que apenas recebe ordens, sem espaço para construir junto, perde aos poucos aquilo que deveria ser sua maior força: o sentimento de pertencimento.
É justamente esse pertencimento que transforma pessoas comuns em uma verdadeira força coletiva.
Finalizo colocando-me à disposição para contribuir no que estiver ao meu alcance. Estou cansado de muitas batalhas, mas ainda tenho forças para continuar lutando. Lideranças vêm e vão. A nossa luta, porém, atravessa gerações. Se pudermos construir esse caminho juntos, estaremos deixando um legado muito maior do que qualquer campanha eleitoral.
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