Por Que a Militância se Sente Esquecida pelos Partidos Políticos?
**MILITÂNCIA, PERTENCIMENTO E O SILÊNCIO QUE A POLÍTICA PRECISA ENFRENTAR**
Já terminei o café. E antes de dar boa noite, preciso compartilhar uma reflexão.
Há pouco eu estava zapeando pelo Instagram e dei de cara com a postagem do Elder Pires. (https://www.instagram.com/p/DZsu6u5SYt6/?igsh=MWcxZ2xoNmVrazF0NA==)
Uma observação importante antes de tudo: o Elder publicou isso na sua rede pessoal, não na conta institucional do PT de Olinda. Então tecnicamente ele falou como militante, como pessoa física. Eu entendo isso. Mas mesmo com essa ressalva, o que vou dizer a seguir não muda muita coisa.
Porque ao ler aquele texto, eu reconheci imediatamente um padrão. O mesmo padrão que eu já tinha visto antes. O mesmo que me incomodou fundo quando Vinícius perdeu o segundo turno em outubro de 2024.
Deixa eu contar essa história.
Naquela noite, nós estávamos no comitê de Peixinhos. Um supermercado vazio, enorme, alugado para ser o quartel general da campanha. E estávamos lá, derrotados, esperando. Vimos a última pessoa sair. Ficamos. Esperando o candidato aparecer, dar uma palavra, reconhecer quem tinha estado ali do começo ao fim.
Ele não veio.
Soubemos depois, pela imprensa, que Vinícius tinha recebido a equipe em casa. E na fala que circulou, nenhum "nós". Nenhuma menção ao comitê, à militância, às pessoas que esperaram até o fim num supermercado vazio.
Agora, meses depois, Vinícius saiu do PT e foi para o PTB. E o Elder publica um texto cumprimentando o novo presidente do PCdoB. Um texto sobre gestão, liderança, articulação, fortalecimento partidário. Um texto de cúpula para cúpula, de dirigente para dirigente.
E de novo, nenhum "nós".
Aí eu me pergunto: onde está o militante nessa história toda?
Porque o militante é quem bate na porta, quem cola o cartaz, quem passa a madrugada no comitê, quem fica até o fim quando todo mundo já foi embora. É o peão da obra. E sem peão não tem obra. Sem militante não tem candidato, não tem mandato, não tem partido.
Mas esse mesmo militante, quando a eleição acaba, vai para a gaveta. Só é lembrado quando precisa de engajamento. "Vem pro ato." "Vai pra caminhada." "Compartilha." E depois? Silêncio.
Olinda tem um pacto de silêncio. Ninguém cobra. Ninguém questiona. Todo mundo parece de uma forma ou de outra comprometido um com o outro. E quem fala fica sozinho.
Eu venho de outra cultura. Transparência pra mim não é estratégia, é postura. Por isso eu não faço política partidária. Faço militância. E são coisas muito diferentes.
Quando o povo se vende por uma telha ou uma dentadura na véspera de eleição, a culpa não é só do eleitor. É de uma organização que nunca fez esse eleitor se sentir pertencente. Que ensinou a aplaudir liderança e esqueceu de valorizar o filiado. Que trata o militante como recurso sazonal e depois estranha quando o povo não tem identidade com o projeto.
Ao longo do tempo, as pessoas foram se tornando comercializadas dentro da política. Foram perdendo o interesse, o vínculo, o senso de pertencimento. E nós, que somos parte dessa história, temos nossa parcela de responsabilidade nisso. Porque quando o militante não se vê dentro da fala dos seus representantes, quando a sua história não aparece em nenhum texto, quando a sua noite no comitê vazio não é mencionada por ninguém, ele começa a se perguntar para que serve estar aqui.
E quando ele para de se perguntar, ele simplesmente vai embora. Ou pior: fica, mas vende o voto por uma telha.
Estamos na porta de mais um ciclo eleitoral. Era pra gente estar batendo palma para o eleitor. Reconhecendo quem constrói. Valorizando quem fica até o fim no comitê vazio.
Em vez disso, dirigente cumprimenta dirigente. E o pacto de silêncio continua.
Fernando Kabral
Olinda – PE
17 de junho de 2026
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*MILITÂNCIA, PERTENCIMENTO E O SILÊNCIO QUE A POLÍTICA PRECISA ENFRENTAR — PARTE 2*
ResponderExcluirNão ia tocar mais nesse assunto. Uma coisa é refletir e debater; outra coisa é polemizar. Mas como o texto gerou debate, e como sempre faço, levo também para o único espaço institucional que tenho entre mim e o partido: o grupo do PT de Olinda no WhatsApp. Tudo que escrevo fora, compartilho lá também. Por hierarquia. Por respeito à gestão. E porque militância e partido para mim são inseparáveis.
Então vamos lá. Porque pelo menos o texto serviu para alguma coisa.
Houve quem interpretou minha crítica como um ataque ao Elder Pires. Não é isso. Preciso deixar claro.
O Elder tem todo o direito de publicar na sua rede pessoal o que quiser, cumprimentar quem quiser, expressar suas afinidades como militante e como pessoa física. Isso não está em discussão.
O que está em discussão é outra coisa. É uma ausência.
Um presidente de partido, seja ele presidente de um time de futebol da esquina, de um condomínio ou do Brasil, tem dois papéis: o de pessoa e o de presidente. E cabe ao presidente, na condição de presidente, unificar. Apaziguar. Reconhecer. Agradecer pelos caminhos percorridos e abrir os que ainda estão por vir.
O Helder poderia, como presidente do PT de Olinda, ter publicado uma nota institucional, em nome do partido, cumprimentando o novo presidente do PCdoB. Não como amigo. Como presidente. Em nome da Federação Brasil da Esperança. Em nome das forças que representam a esquerda. Em nome de todos e todas que caminharam juntos até aqui.
Isso seria mais adulto. Mais amadurecido. Daria exemplo à militância de que somos liderança, de que embora tenhamos lado, sabemos unificar. Sabemos reconhecer.
Porque toda moeda tem dois lados. Na política isso é lei. Tem quem defenda que o militante deve fidelidade ao partido acima de tudo, porque mandatos vão e vêm, pessoas vão e vêm, tudo é passageiro, mas o partido fica. O partido é ferramenta democrática de luta e construção. Eu concordo com isso.
Tem quem defenda que cada um vai para onde quiser, que cada eleição é uma nova realidade, que a dança das cadeiras faz parte do jogo. Também é um direito democrático.
E tem quem fique no meio, sem concordar com nenhum dos dois lados. Isso também é direito de todos e todas.
Mas o silêncio? O silêncio também comunica. E é a pior das comunicações. Porque a neutralidade, muitas vezes, acaba favorecendo a manutenção das coisas como estão, inclusive entre aqueles que representam lutas coletivas.
Eu defendo que o partido é a nossa moradia permanente. Independente de chuva, sol, tempestade. Foi o partido que nos fortaleceu até aqui. Foi ele que elegeu o presidente Lula pela terceira vez e vai eleger pela quarta. Somos o maior país de esquerda da América Latina. Temos força.
Agora, essa dança de cadeiras onde cada um vai por onde quer? Vá. É seu direito. Mas largue o que você construiu aqui. O mandato foi construído pelo partido, com o suor da militância, com a noite de quem ficou até o fim no comitê vazio. Isso não pertence a uma pessoa. Pertence à causa.
E é exatamente por isso que a militância precisa ser valorizada. Não só na campanha. Não só no discurso do primeiro turno. Todos os dias. Em cada texto. Em cada postagem. Em cada gesto de quem ocupa um cargo de representação.
Porque sem quem caminha, ninguém chega a lugar nenhum.
Olinda – PE
18 de junho de 2026
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