PESQUISADORES DE CAMPO: ONDE VIVEM? O QUE COMEM? COMO SE REPRODUZEM? — DA PRANCHETA AO ALGORITMO
Agora há pouco, foi compartilhado nos grupos o resultado da pesquisa Atlas Intel.
Daí eu fiquei olhando para essa pesquisa da Atlas Intel e pensando...
Rapaz...
Como o mundo mudou.
Mas, antes que alguém diga que a gente ficou velho, não estudou e está querendo comparar computador com prancheta...
Calma!
Vamos entender primeiro como funciona a tecnologia atual.
A Atlas Intel utiliza uma metodologia chamada Random Digital Recruitment, o RDR — recrutamento digital aleatório.
Em vez de depender de entrevistadores e entrevistadoras espalhados pelas ruas, o recrutamento acontece pela internet.
As pessoas são alcançadas durante a navegação digital, respondem ao questionário e, depois, os dados passam por procedimentos estatísticos de controle, pós-estratificação e ponderação, buscando uma amostra representativa do eleitorado.
Na pesquisa de Pernambuco que despertou essa minha curiosidade, foram 1.836 entrevistados, entre os dias 15 e 20 de setembro, com margem de erro de 2 pontos percentuais.
Tecnologicamente...
É impressionante.
Só que eu venho de outro mundo.
E, quanto mais eu leio sobre essa metodologia, mais lembro da famosa “central” que nós, pesquisadoras e pesquisadores de campo, gloriosamente adorávamos fazer.
Mandavam as equipes para os principais pontos de fluxo.
E lá íamos nós...
Prancheta na mão e uma cota para cumprir.
Tantos homens.
Tantas mulheres.
Determinadas faixas de idade.
E outros perfis.
A gente abordava um...
Abordava outro...
E aí entrava uma palavra que quem trabalhou com pesquisa conhece muito bem:
Filtro.
O filtro éramos nós.
Era através dele que acontecia o recrutamento no campo.
Antes de aplicar a entrevista, a gente precisava saber se aquela pessoa se encaixava no perfil que ainda estava sendo procurado: homem, mulher, faixa de idade e os demais critérios estabelecidos para aquela amostra.
Se encaixava no filtro?
Entrava na cota.
Não se encaixava?
Agradecia e partia para a próxima abordagem.
E assim íamos preenchendo aquelas cotas até completar a amostra.
Ou seja: naquele modelo, uma parte fundamental da seleção acontecia ali mesmo, no local da pesquisa, antes da entrevista.
Hoje, na metodologia digital da Atlas Intel, existe recrutamento digital e depois existem procedimentos estatísticos de pós-estratificação e ponderação da amostra.
E aqui é importante não inventar o que não sabemos: sem o relatório metodológico completo dessa pesquisa específica, não dá para afirmar quantas pessoas foram inicialmente recrutadas nem exatamente em qual etapa cada controle foi aplicado.
Mas a diferença para quem viveu o campo é impressionante.
Antes, havia uma trabalhadora ou um trabalhador segurando uma prancheta e aplicando o filtro diante do entrevistado.
Hoje, boa parte desse processo pode acontecer eletronicamente.
A velha central ganhou computador...
Internet...
E algoritmo.
E foi justamente aí que uma coisa começou a me incomodar.
Cadê o trabalhador?
Cadê a trabalhadora?
Porque, por trás daquela velha metodologia, existia uma categoria inteira.
Eram pesquisadoras e pesquisadores.
Supervisoras e supervisores.
Coordenadoras e coordenadores.
Equipes de campo espalhadas pelo Brasil.
Gente que conhecia ponto de fluxo.
Sabia abordar sem induzir resposta.
Sabia cumprir cota.
Identificar perfil.
Conduzir questionário.
Isso também era conhecimento.
Era experiência profissional.
Era inteligência humana acumulada durante anos de trabalho.
E aí me bateu aquela velha chamada de televisão...
Pesquisadoras e pesquisadores de campo:
Onde vivem?
O que comem?
Como se reproduzem?
Hoje...
No Globo Repórter!
Brincadeiras à parte...
A pergunta verdadeira é quase tão curiosa quanto:
Onde foram parar essas trabalhadoras e esses trabalhadores?
Quantas pessoas que passaram anos coletando dados pelas ruas do Brasil viram sua profissão encolher à medida que a coleta, o processamento e a análise passaram para o ambiente digital?
E aqui não estamos falando de qualquer história.
Estamos falando de trabalhadoras e trabalhadores que ajudaram a construir alguns dos maiores institutos de pesquisa do país e do mundo.
Gente que carregou prancheta, bateu de porta em porta, atravessou cidades, enfrentou sol, chuva, desconfiança, recusas e quilômetros de caminhada para transformar a opinião das pessoas em dados.
Não houve uma cerimônia de despedida da prancheta.
Ninguém anunciou:
“A partir de amanhã, essa categoria começará a desaparecer.”
Não.
O processo simplesmente aconteceu.
A tecnologia avançou.
As empresas mudaram seus métodos.
O mercado se adaptou.
E muitas trabalhadoras e muitos trabalhadores foram ficando pelo caminho.
E existe uma parte desconfortável nessa história.
Não foi somente “a máquina” que fez isso.
Somos nós, seres humanos, que construímos, contratamos, consumimos e naturalizamos sistemas que substituem trabalho humano.
E existe ainda outra questão que precisa entrar nessa conversa:
O que acontece com essas trabalhadoras e esses trabalhadores quando envelhecem?
Porque experiência não desaparece com a idade.
Quem passou anos fazendo pesquisa sabe observar.
Sabe abordar.
Sabe ouvir.
Sabe coletar informação.
Sabe identificar inconsistências.
Sabe analisar dados.
Sabe compreender comportamentos.
Esse conhecimento continua existindo.
Uma pesquisadora não deixa de saber pesquisar porque envelheceu.
Um pesquisador não perde décadas de experiência porque apareceu um algoritmo capaz de executar parte do seu trabalho.
O problema é que o mercado muitas vezes deixa de enxergar quem carrega esse conhecimento.
E aí trabalhadoras e trabalhadores chegam a uma determinada idade com experiência de sobra, capacidade de sobra e vontade de continuar produzindo...
Mas as oportunidades desaparecem.
O resultado pode ser isolamento, inatividade e sedentarismo — não necessariamente porque essas pessoas escolheram parar, mas porque o mundo do trabalho começou a tratá-las como se já não tivessem mais nada a oferecer.
E talvez exista aí uma das contradições mais cruéis da modernização:
Nunca acumulamos tanto conhecimento ao longo de uma vida.
E, ao mesmo tempo, conseguimos tornar invisíveis justamente aqueles que carregam décadas desse conhecimento.
Talvez por isso essa pesquisa tenha chamado tanto a minha atenção como alguém que já esteve do outro lado da prancheta.
Comecei querendo entender como a Atlas Intel conseguia fazer eletronicamente uma pesquisa que, no meu tempo, colocaria muita gente na rua.
Terminei pensando justamente nessa gente.
A tecnologia merece ser admirada.
O avanço tecnológico não é nosso inimigo.
Mas nenhuma modernização deveria transformar trabalhadoras e trabalhadores que ajudaram a construir o mundo anterior em notas de rodapé da história.
Muito menos invisibilizá-los como peças de museu.
Porque talvez a frase “a máquina nos superou” seja simples demais.
Máquinas não acordaram um belo dia e resolveram que não precisavam mais de nós.
Foram seres humanos que desenvolveram essas tecnologias.
Seres humanos que reorganizaram os processos de trabalho.
Seres humanos que decidiram como utilizá-las.
E somos nós também que estamos naturalizando uma realidade na qual conhecimento e experiência podem ser descartados simplesmente porque surgiu uma maneira mais rápida e barata de executar determinada tarefa.
E isso não termina nas pesquisadoras e nos pesquisadores.
Outras funções também estão passando — e ainda passarão — por transformações semelhantes.
Algumas profissões não vão desaparecer.
Continuarão existindo.
Só precisarão de muito menos gente para realizar o trabalho que antes empregava milhares.
E talvez seja justamente aí que esteja o perigo mais silencioso:
A profissão não precisa desaparecer...
Para o trabalhador desaparecer dela.
Hoje somos capazes de produzir uma pesquisa com milhares de entrevistas sem aquela multidão de pesquisadoras e pesquisadores circulando pelas cidades.
Fantástico.
Mas eu ainda fico olhando para a tela...
E lembrando de nós...
Com nossas pranchetas.
E pensando:
Modernizamos a pesquisa.
Modernizamos a coleta.
Modernizamos a análise.
Agora precisamos fazer uma pergunta que nenhuma tecnologia pode responder por nós:
O que fizemos com as trabalhadoras e os trabalhadores que faziam tudo isso antes?
Onde foram parar as pesquisadoras e os pesquisadores?
Inclusive os velhos.
Acho que essa resposta...
Todos nós já sabemos.
E já que estamos falando de trabalhadoras e trabalhadores...
Vale terminar lembrando uma frase escrita há quase dois séculos:
“Proletários de todos os países, uni-vos!”
— Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto do Partido Comunista (1848).
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