Que Rei Sou Eu? Que Militante Sou Eu? Há quase quarenta anos, uma pergunta entrou para a cultura brasileira. 🚩


Que Rei Sou Eu?
Que Militante Sou Eu?

Há quase quarenta anos, uma pergunta entrou para a cultura brasileira.

*Que Rei Sou Eu?*

A novela conquistou o público com humor, ironia, personagens exagerados e um reino imaginário que, na verdade, fazia o Brasil olhar para si mesmo.

Hoje, outra pergunta começou a me acompanhar.

*Que militante sou eu?*

*Que militantes somos nós?*

Essa pergunta não nasceu dentro de um partido político.

Também não nasceu para responder quem está certo ou quem está errado.

Ela nasceu observando uma sequência de convocações para a militância espalhadas pelo Brasil.

Um encontro popular em Madureira, no Rio de Janeiro, onde o samba também fazia parte da mobilização.

Uma atividade em Vera, no Mato Grosso, distribuindo mudas de plantas.

Uma convocação em Sinop, também no Mato Grosso.

Um bingo comunitário na Brasilândia, em São Paulo.

Uma atividade comunitária no Gama, no Distrito Federal.

Encontros em Xambá, em Olinda, Pernambuco.

Reuniões em hotéis no Recife.

Cada convite utilizava exatamente a mesma expressão:

> *"Convocamos toda a militância."*

Foi nesse momento que surgiu uma dúvida.

Quando alguém escreve essa frase...

Quem exatamente está sendo convocado?

O militante da caminhada?

O militante da reunião?

O militante do sindicato?

O militante da associação de moradores?

O militante que dança samba em Madureira?

O que participa de um bingo comunitário na Brasilândia?

O que leva a família para plantar uma muda de árvore em Vera?

O que participa de uma atividade comunitária no Gama?

O que vai a uma reunião em um hotel?

Ou todos eles?

Talvez exista um detalhe que esteja passando despercebido.

Nós repetimos a palavra *militância* como se ela tivesse um único significado.

Mas será que ainda tem?

Durante muito tempo imaginei que o problema estivesse apenas na palavra militância.

Hoje acho que o problema é maior.

Talvez tenhamos perdido também o significado da palavra *conceito*.

Falamos o tempo inteiro sobre o conceito de uma campanha.

O conceito de uma marca.

O conceito de um projeto.

O conceito de uma gestão.

Mas quase nunca paramos para perguntar:

*Qual é o conceito de conceito?*

Os dicionários registram palavras.

Mas quem lhes dá vida são as pessoas.

E pessoas vivem em territórios diferentes.

Cada território produz experiências diferentes.

Cada experiência transforma o significado das palavras.

Talvez seja por isso que um militante de Xambá não seja necessariamente igual a um militante da Brasilândia.

Nem ao de Vera.

Nem ao de Sinop.

Nem ao de Madureira.

Nem ao do Gama.

Nem ao que participa de uma reunião em um hotel.

Todos podem ser militantes.

Mas talvez cada um carregue uma ideia diferente sobre o que significa militar.

E isso não é um problema.

O problema começa quando imaginamos que todos entendem essa palavra da mesma forma.

Mas existe outra questão que me inquieta.

Nem toda convocação alcança todas as pessoas.

Quando alguém publica:

> *"Convocamos toda a militância."*

Parece que basta querer participar.

Mas será que basta?

Tem quem vá de avião.

Tem quem vá de carro.

Tem quem pegue um aplicativo.

Tem quem vá de ônibus.

Tem quem vá a pé.

E tem quem simplesmente não consegue ir.

Não porque não queira.

Mas porque não tem dinheiro para a passagem.

Então talvez a pergunta também seja outra.

Quando convocamos a militância...

Estamos convidando quem quer participar?

Ou apenas quem consegue chegar?

Talvez essa também seja uma forma de compreender o significado da palavra militância.

Porque cada evento parece chamar um tipo diferente de participação.

Há encontros para quem já está convencido.

Há encontros para quem está chegando agora.

Há eventos para fortalecer vínculos.

Outros para formar novas pessoas.

Alguns aproximam comunidades.

Outros organizam campanhas.

Todos são legítimos.

Mas talvez não estejam chamando exatamente o mesmo militante.

Foi por isso que comecei a me perguntar.

*Que militante sou eu?*

*Que militantes somos nós?*

Não para encontrar uma resposta definitiva.

Mas para compreender melhor o significado das palavras que repetimos todos os dias.

Talvez a educação política comece exatamente aí.

Não quando aprendemos a responder.

Mas quando voltamos a fazer perguntas.

E talvez a primeira delas seja justamente esta:

*Quando alguém convoca a militância... qual militância está sendo convidada para essa conversa?*

E talvez exista ainda outra pergunta.

*Quem está sendo convidado...*

*E quem realmente consegue chegar?

*Julho de 2026.*

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