AMERICAN BRAZIL: QUANDO A GENTE APRENDEU A ACHAR NORMAL
Imagem ilustrativa que simboliza a influência cultural norte-americana no Brasil desde os anos 70.
A composição mistura referências da discoteca, mídia e consumo para provocar reflexão sobre identidade e soberania cultural.
AMERICAN BRAZIL: QUANDO A GENTE APRENDEU A ACHAR NORMAL
A gente talvez não saiba dizer o dia exato em que tudo começou.
Não teve decreto.
Não teve anúncio oficial dizendo que, a partir dali, a gente começaria a pensar diferente.
Mas a gente sabe quando começou a parecer normal.
Final dos anos 70.
Anos 80 consolidando.
Anos 90 estruturando.
Anos 2000 transformando em sistema.
Foi quando cantar em inglês virou necessidade de sobrevivência artística.
Cantor brasileiro que não cantasse em inglês muitas vezes não tocava.
Mesmo sem saber falar o idioma.
Era embromation mesmo.
Fonética decorada para soar internacional.
O grupo Pholhas é símbolo dessa época.
A banda surgiu em 1969, em São Paulo, e compunha em inglês mesmo sem dominar o idioma.
Eles tiveram hit grande com “My Mistake”, que chegou ao primeiro lugar das paradas e teve venda alta em pouco tempo, segundo registros públicos.
Isso mostra como o inglês virou sinal de modernidade e “internacional” dentro do Brasil.
E não era só música.
O cinema importado lotava salas.
A discoteca virou febre.
O filme “Saturday Night Fever” (1977) virou referência mundial de estilo e comportamento, com a estética disco.
Aqui no Brasil, “Dancin’ Days” (TV Globo, 1978–1979) colocou essa estética dentro das casas.
A própria Globo registra que a trilha internacional da novela vendeu quase um milhão de cópias, e o gshow também cita que ultrapassou 1 milhão.
Não era só assistir.
Era copiar.
Era incorporar.
Os anos 80 fizeram do inglês sinônimo de modernidade.
Os anos 90 trouxeram globalização e tecnologia.
Os anos 2000 trouxeram internet, plataformas e algoritmo.
Delivery.
Home office.
Streaming.
Startup.
Black Friday.
O português não morreu.
Mas ficou cheio de enxerto.
E quase ninguém fala disso.
O Brasil é um país continental.
O IBGE estimou a população do Brasil em 213,4 milhões em 2025.
E, mesmo sendo gigante, a gente não aprende a olhar para a própria diversidade.
O Brasil não fala um único português.
Existem variações regionais profundas.
Existem influências indígenas, africanas e europeias.
E tem dado objetivo aqui.
O Censo 2022 do IBGE registrou 295 línguas indígenas no Brasil.
Ou seja, sempre fomos múltiplos.
Mas culturalmente fomos treinados a olhar para o norte.
Ignoramos nossos vizinhos latino-americanos.
Ignoramos o espanhol no cotidiano.
Ignoramos a riqueza que está ao nosso redor.
Enquanto isso, consumimos Estados Unidos o dia inteiro.
Liga a televisão: Estados Unidos.
Liga o rádio: Estados Unidos.
Abre a internet: Estados Unidos.
Não foi invasão armada.
Foi invasão simbólica.
O país economicamente dominante exporta cultura.
A cultura exporta idioma.
O idioma exporta mentalidade.
E talvez a pergunta não seja quando começou exatamente.
Talvez a pergunta seja:
Quando a gente passou a achar que isso era o padrão?
Porque quando a referência principal deixa de ser você, o senso de pertencimento enfraquece.
E o silêncio sobre isso incomoda.
Não é ataque a povo nenhum.
É reflexão sobre processo.
Olinda, Pernambuco – 1º de março de 2026, 9h46
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