Quando a sátira vira decadência: a mancha da volta de Corra a Polícia Vem Aí 2025


Corra que a Polícia Vem Aí – Da inocência ao grotesco

A franquia Corra que a Polícia Vem Aí nasceu no fim dos anos 80 como uma das maiores sátiras policiais do cinema. O responsável por eternizar o personagem Frank Drebin foi Leslie Nielsen, um ator que até então era visto em papéis sérios, mas que encontrou no humor pastelão uma nova vida artística. Nielsen fazia rir justamente pela inocência: ele interpretava um detetive atrapalhado, convicto de sua seriedade, mas cercado de absurdos. O público ria porque havia ingenuidade, não vulgaridade. Era humor para adultos e crianças, que podiam se divertir sem constrangimento.

Foram três filmes oficiais: Corra que a Polícia Vem Aí (1988), Corra que a Polícia Vem Aí 2 ½ (1991) e Corra que a Polícia Vem Aí 33 ⅓ – O Insulto Final (1994). Depois disso, silêncio por mais de três décadas, até que em 2025 a franquia retorna com um novo protagonista: Liam Neeson, ator de renome mundial, admirado por seus papéis de ação e suspense, agora colocado como herdeiro no papel cômico.

A promessa era de homenagem e renovação. Mas o que vimos não foi homenagem, nem respeito. Foi uma mancha. O novo filme aposta em cenas grotescas, que nada têm a ver com a tradição da franquia. O humor ingênuo deu lugar ao choque forçado, à vulgaridade e a situações que ultrapassam qualquer limite ético.

Entre elas, a mais inaceitável: uma sequência em que investigadores observam através de um binóculo especial e a cena sugere sexo oral, não apenas entre os personagens, mas também envolvendo um cachorro. E o pior: logo em seguida, a montagem insinua uma penetração do animal. Isso não é apenas mau gosto. É uma afronta ética. Animais são seres inocentes, que devem ser tratados com respeito e dignidade, jamais usados como instrumento de piada sexual. Ao expor isso em escala mundial, o filme ultrapassa todos os limites, normalizando o que não pode ser normalizado.

Mais grave ainda: isso é feito com um ator do porte de Liam Neeson, que construiu sua carreira com papéis sérios, de dignidade, e que agora, no final da trajetória, aceita participar de um filme que vulgariza sua imagem.

O que poderia ser um reencontro com a memória afetiva de milhões de fãs ao redor do mundo, a memória de Leslie Nielsen e sua genialidade cômica, acabou se tornando um espetáculo de mau gosto. Não é humor, não é sátira, não é paródia. É um desrespeito ao público, à história da franquia e sobretudo aos animais, transformados em instrumentos de uma piada sexual que jamais deveria ter saído do papel.

Nos clássicos, o público ria porque via um policial que acreditava na lei, que queria fazer o certo, mesmo que fosse um completo desastre. Havia respeito pelo personagem e, de forma indireta, passava-se a mensagem de que errar faz parte da condição humana. Hoje, o que se vê é vulgaridade transformada em produto, como se tudo fosse aceitável em nome do entretenimento.

Trinta anos depois, a volta de Corra que a Polícia Vem Aí não celebrou a inocência do passado. Manchou-a. De forma porca, grotesca, inaceitável. E deixou a todos nós uma pergunta: até onde a indústria do entretenimento está disposta a ir para vender bilhetes e cliques?

Que essa crítica chegue não só ao perfil oficial do filme (@nakedgunmovie), mas também aos que têm reproduzido essas cenas, @jetttalon, @vict.orfooty, @hollywoodmoviereels e @rj_hannah, porque não basta apenas expor a indignação, é preciso direcionar a cobrança para quem de fato alimenta e divulga esse conteúdo. No Brasil, veículos como o AdoroCinema também precisam refletir e repercutir esse debate, pois a crítica é global, mas os valores são universais.

Fernando Kabral
13 de setembro de 2025

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