CastraMóvel em Olinda: isso aqui é pra inglês ver? Um relato sobre a campanha de castração de cães e gatos em Pernambuco


CastraMóvel em Olinda: isso aqui é pra inglês ver? Um relato sobre a campanha de castração de cães e gatos em Pernambuco

Óia, deixa eu contar uma coisa pra vocês. Sabe quando a prefeitura manda o pessoal capinar a rua? Eles vêm, limpam bonitinho a avenida principal, aquela que todo mundo vê passando de carro, tiram o mato, deixam tudinho arrumado. Só que o beco, a viela, o fundo de quintal, aquilo ali ninguém mexe. Fica do jeito que sempre foi. Pois é isso que eu vi na campanha de castração que rolou aqui em Olinda, no Rio Doce. Bonito por fora, pra quem já tava perto. Mas não chegou no beco, não chegou na viela, não chegou em quem realmente precisava.

E olha, eu não tô cuspindo no prato que comi não. Eu levei meu cachorro, o Bob Marley, lá pra castrar. Fui atendido, agradeço. Mas ser grato não me cala. Às vezes é justamente quem foi atendido que precisa falar, porque foi quem viu de perto.

QUEM É O BOB

Deixa eu contar quem é o Bob, porque isso importa. O Bob é um vira-lata, um caramelo, cão sem raça definida, desses que ninguém dá valor. Ele veio de uma família que não tinha noção nenhuma de cuidado com animal, não por maldade, mas porque nunca ensinaram pra eles o que é responsabilidade com um bicho. Um dia o vizinho se mudou e deixou o Bob pra trás. Eu que fiquei com ele.

Não foi fácil não. Teve uma época que o Bob pegou doença de carrapato e a gente achou que ia perder o cachorro. Eu não tinha dinheiro pra veterinário particular, pra remédio caro. Foi a comunidade que segurou essa onda comigo, um amigo deu um remédio, outro ajudou com uma grana, outro trouxe comida. Aqui na comunidade a lei é essa: quem pode, ajuda quem não pode. A gente não tem outro jeito. É assim que a gente sobrevive.

O QUE EU VI NO DIA DO EVENTO

Dia nove de julho eu fui lá, na Vila Olímpica, Avenida Brasil, número quatrocentos e setenta e seis, no Rio Doce. Chovia. Peguei o Bob no colo, quatorze quilos, e fui andando com uma sombrinha, uma toalha velha e uma garrafa de água. Foi tudo que eu levei. Não tinha remédio, não tinha nada, só o essencial.

Chegando lá, olhei em volta e falei: cadê o pobre aqui? Cadê o povo que devia tá aqui? Só via carro bom chegando, carro que não é pra qualquer um, cachorro com roupa de grife, carrinho de passeio pra cachorro, um tal de Uber Pet cobrando pra levar gente pra casa. Tinha barraca vendendo coisa, vendendo remédio, vendendo roupa de pós-operatório. Aquilo parecia mais uma feira chique do que um mutirão de saúde pra quem precisa. Eu, com minha sombrinha e o Bob tremendo de medo da chuva, me senti um peixe fora d'água. Parecia que eu tinha entrado errado, sabe, tipo entrei numa festa que não era pra mim.

E o ginásio? Enorme, do lado, vazio. Por que não fizeram o evento lá dentro, protegido da chuva? Ninguém explicou.

A PERGUNTA QUE FICA

Se essa campanha realmente quer diminuir a quantidade de cachorro na rua daqui a cinco, dez anos, ela tinha que fazer diferente. Ela tinha que falar com quem não tem cachorro, porque é esse povo que acha normal ver bicho na rua sofrendo, cheio de ferida, mancando, e não fazer nada, porque nunca teve um animal pra saber que aquilo dói. É pra esse povo que a campanha devia gritar: óia, você que passa por um cachorro de rua todo dia e não faz nada, esse cachorro também é seu, cuida dele, leva pra castrar, não deixa multiplicar mais sofrimento.

Só que o jeito que fizeram foi só na internet, só cadastro no celular, site chique de agendamento. Quem não tem celular bom, quem não sabe mexer em site, quem não tem internet em casa, esse já ficou de fora antes de nem saber que o evento existia. Então cê já entende por que só chegou lá gente que já tinha consciência, que já cuidava do bicho, que já tinha carro pra levar o cachorro embrulhadinho. Não foi capinado o beco. Foi só a avenida.

UMA COISA QUE ME DEIXOU DE PULGA ATRÁS DA ORELHA

No papel que me deram, o telefone de emergência, pra caso de dúvida depois da cirurgia, tem código de área de São Paulo. Eu não vou afirmar que a empresa que fez o serviço é de fora, isso eu ainda não confirmei direito, é uma pergunta minha, não uma acusação. Mas fica a pergunta: Pernambuco não tem gente formada, não tem faculdade de veterinária, não tem estudante que possa fazer esse trabalho aqui dentro, gerando emprego pra gente daqui? Por que que tem que vir de fora?

E outra coisa que eu não posso deixar de falar, mesmo sem citar nome de ninguém: tem político, tem gente que usa a rede social, que vem aqui na nossa comunidade, pisa no nosso ambiente, tira foto, aparece, só pra se promover, só pra se projetar pra um cargo no futuro. Isso também é uma ferida que a gente sente na pele, na comunidade, e a gente sabe reconhecer quando é isso que tá acontecendo.

O QUE EU QUERO DIZER NO FIM

Eu não sou contra castrar cachorro, não. Eu sou a favor. Mas eu quero que a campanha capine o beco também, não só a avenida. Quero que ela chegue na viela, no fundo de quintal, na casa de quem não tem noção nenhuma ainda. Quero que ela fale com quem não tem cachorro, porque é aí que mora o futuro dessa cidade ter menos animal sofrendo na rua.

O Bob foi atendido, e eu sou grato por isso. Mas o Bob é só um. E lá na minha rua, e em todo canto desse país, tem um monte de Bob que ninguém viu, ninguém buscou, porque a campanha não foi atrás. Ficou esperando o povo vir até ela. E quem não sabe que precisa vir, nunca vai vir sozinho.

É isso. Essa é minha fala, do jeito que eu falo mesmo, pro povo que entende o que eu tô dizendo.

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