LULA CUMPRIU 26 DE 36 PROMESSAS? O QUE OS NÚMEROS CONTAM — E O QUE A MANCHETE NÃO CONTA LULA: UM GOVERNO QUE NÃO CABE NOS NÚMEROS DE UMA MANCHETE
LULA CUMPRIU 26 DE 36 PROMESSAS? O QUE OS NÚMEROS CONTAM — E O QUE A MANCHETE NÃO CONTA
LULA: UM GOVERNO QUE NÃO CABE NOS NÚMEROS DE UMA MANCHETE
Em 3 de agosto de 2026, uma publicação da CBN Vale chamou atenção ao apresentar um balanço do terceiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: de 36 compromissos acompanhados, 26 teriam sido integralmente cumpridos, quatro parcialmente e seis permaneceriam não cumpridos.
A publicação que deu origem a esta reflexão está no Instagram da CBN Vale:
[Publicação original da CBN Vale no Instagram](https://www.instagram.com/p/DblBaH4ksR1/?igsh=dDM3bjl0aGxrNzN1&utm_source=chatgpt.com)
Os números têm origem no projeto Promessas dos Políticos, do g1, que acompanha compromissos eleitorais desde 2015. O balanço considera o período entre 1º de janeiro de 2023 e 30 de junho de 2026: 26 das 36 promessas selecionadas foram classificadas como integralmente cumpridas, quatro como parcialmente cumpridas e seis como não cumpridas.
Matematicamente, são 72,2% integralmente cumpridas. Se forem consideradas também as quatro parcialmente realizadas, 30 das 36 tiveram execução total ou parcial — 83,3%. O número é o mesmo. O enquadramento muda.
E é justamente aí que começa uma discussão que uma manchete não consegue comportar.
QUEM ESCOLHE A RÉGUA TAMBÉM PARTICIPA DA NARRATIVA
Um levantamento de 36 compromissos pode ser útil para acompanhar determinadas promessas eleitorais. Mas ele não representa, sozinho, tudo aquilo que um governo realizou em três anos e meio.
Nesse período estão políticas e decisões que alcançam educação, saúde, renda, habitação, alimentação, tributação, ciência, cultura e segurança pública. Entre os próprios compromissos classificados como cumpridos aparecem reforma tributária, isenção do Imposto de Renda para rendimentos de até R$ 5 mil, retomada do Mais Médicos, ampliação do Farmácia Popular, valorização do salário mínimo, Minha Casa, Minha Vida e retirada do Brasil do Mapa da Fome.
Portanto, a pergunta não deveria terminar em “quantas promessas Lula cumpriu?”
Também precisamos perguntar: quais promessas foram escolhidas para compor essa lista? Como foram classificadas? O que ficou fora dela? E quanto cada compromisso dependia exclusivamente da Presidência da República?
UM PRESIDENTE NÃO GOVERNA SOZINHO
O Brasil tem Executivo, Legislativo e Judiciário. Muitas mudanças prometidas por um presidente dependem de aprovação do Congresso, regulamentação, participação de estados e municípios ou articulação entre diferentes instituições.
Um exemplo está na recriação do Ministério da Segurança Pública, classificada como promessa não cumprida. Segundo o próprio levantamento reproduzido por outros veículos, o governo vinculou o avanço dessa reorganização à PEC da Segurança Pública, que depende do Congresso.
Na universalização da internet nas escolas, outra pendência, dados citados pela CONTEE apontam avanço de aproximadamente 45% das escolas públicas em 2023 para cerca de 73% em 2026. Não é universalização — portanto, a promessa não está integralmente cumprida —, mas também não significa ausência de política pública.
É justamente esse contexto que desaparece quando políticas públicas são transformadas apenas em três etiquetas: cumpriu, cumpriu parcialmente ou não cumpriu.
O MESMO NÚMERO, DUAS HISTÓRIAS
Talvez a melhor demonstração esteja na própria circulação da notícia.
Enquanto uma manchete pode destacar “26 de 36 promessas cumpridas”, entidades ligadas ao movimento sindical olharam para os mesmos dados e destacaram que Lula “já cumpriu mais de 80% das promessas”, considerando juntas as 26 integralmente realizadas e as quatro parcialmente executadas.
Nenhuma operação matemática mudou.
Mudou o enquadramento.
E isso importa porque informação não é produzida no vazio. Escolher o título, o recorte, aquilo que ganha destaque e aquilo que fica escondido também interfere na maneira como o cidadão compreenderá um governo.
OLHAR PARA O NÚMERO — E PARA O BRASIL EM VOLTA DELE
Avaliar governos é necessário. Cobrar promessa é necessário. Jornalismo deve fiscalizar o poder independentemente de quem esteja no Palácio do Planalto.
Mas fiscalização também exige contexto.
O terceiro governo Lula não governa num laboratório. Governa em meio a disputas no Congresso, conflitos econômicos, interesses empresariais, pressões internacionais, desigualdades históricas e uma sociedade profundamente polarizada.
Por isso, reconhecer uma promessa não cumprida não significa ignorar aquilo que avançou. Da mesma maneira, reconhecer conquistas não significa declarar que todos os problemas brasileiros foram resolvidos.
Talvez a leitura mais interessante dos próprios números seja justamente esta:
26 compromissos integralmente cumpridos.
4 parcialmente cumpridos.
6 ainda não cumpridos.
O cidadão merece conhecer os três números.
Mas merece conhecer também a história que existe por trás deles.
Porque democracia não se constrói apenas contando promessas.
Constrói-se compreendendo quem governa, em quais condições governa, quais interesses estão em disputa, quem ganha, quem perde e quais escolhas estão sendo feitas para o futuro do país.
E antes de aceitar qualquer manchete — inclusive esta — vale sempre fazer uma pergunta:
Quem escolheu a régua com que estamos medindo o Brasil?
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