Vera Lúcia Themótheo — Deus nos permite as trevas para que descubramos o valor da luz | Fernando Kabral
DEUS NOS PERMITE AS TREVAS PARA QUE DESCUBRAMOS O VALOR DA LUZ
https://www.facebook.com/share/1Ri2Cop15X/
Até onde me lembro, minha certidão de nascimento diz que eu nasci em São Paulo, na Maternidade Leonor Mendes de Barros, na Zona Leste. Mas não diz por quanto tempo eu permaneci em São Paulo.
O ano era 1965 — ou pelo menos passa a minha ideia — que eu vim para Olinda, Pernambuco, ainda muito bebê. Não sei onde minha mãe morava, quais eram as situações deles na época. Tudo que eu sei é um corte. Um corte no tempo de um tempo que já passou.
Retorna para um novo corte.
A mãe foi embora para o Rio de Janeiro, levou a filha mais velha e deixou os quatro meninos dentro de uma casa, sozinhos. Mas, segundo dizem, o mais novo com 40 dias de nascido. A sequência do mais novo era: depois vem o "F", depois vem Fernando Cabral e, por último, "Z", mais velho.
Aí dá-se um corte.
Tudo que a gente tem é reflexo. "Z" e "F" foram para casa da madrasta, depois para casa de outras madrastas... Bem, eu sei que eu nunca tive contato com eles, tinha vaga lembrança da existência deles. Sabia apenas um muro.
O "J" foi criado pela minha avó, que era conhecida como “Mãe Júlia”, mãe de meu pai. E eu fui ser criado pela mãe de minha mãe, também conhecida como “Maria de Jesus”.
E assim o tempo girou.
Por volta dos meus 14, talvez 15 anos, a minha avó já se sentia velha demais para cuidar de mim, e eu com uma energia que não cabia dentro de mim. Aí ela me botou no ônibus para o Rio de Janeiro.
Foi quando eu conheci minha mãe.
Passei pouco tempo com a minha mãe, até porque foi um choque cultural, né? De repente, de uma hora para outra, sem saber que tem uma mãe...
Meu pai eu sabia que morava em Pernambuco porque, de vez em nunca, ele aparecia. Nunca tive contato direto com ele. Eu vim conhecer meu pai mesmo com a minha chegada em São Paulo, acho que por volta dos 16 para 17 anos.
Conhecia a capital ainda completamente perdido. Imagina um menino com esse histórico de vida chegar na capital paulista.
Fomos morar na casa de Mãe Júlia, no bairro da Saúde. Uma casa muito humilde, mas que acolheu a todos e todas que chegavam do Nordeste. Enfim, a casa da Mãe Júlia era a base de tudo.
Nesse contexto, eu comecei a ser camelô, que eu já fazia algum limite de camelô no Rio, e continuei camelô lá em São Paulo.
Eu não me lembro exatamente aonde eu conheci a Vera, mas tudo indica que a Vera trabalhava na Yakult à época. A Yakult empregava mulheres, e a gente se deu tão bem...
Passamos a viver praticamente todos os dias. Arrumei um carrinho de Yakult, comecei a vender Yakult também, eu e ela.
Logo o mundo girou.
E a minha amizade com a Vera foi se tornando uma espécie de mãe, pai, irmão, tia, vó. Ela era um pouquinho mais, com mais idade que eu.
Uma mulher muito batalhadora. Aquela mulher que estimula, que dá o caminho, que te ensina o caminho e que você se sente tão seguro ao lado dela que tudo mais parece não ter a menor importância.
Então a gente passa, instintivamente, inconscientemente, a segui-la.
Sua dor passa a ser a minha dor. Suas alegrias passam a ser as minhas alegrias.
Logo depois descobrimos: Vera estava grávida.
E esse momento da gravidez foi um dos momentos em que estávamos juntos praticamente todo dia.
Moramos em tantos lugares em São Paulo... Estação da Luz, Baixo Glicério, Bela Vista... Eita, que a gente morou em todo lugar!
Uma coisa era certa: Raquel não podia nascer em qualquer lugar. Então a gente tinha que arrumar uma casa decente para morar. Chega, chega de morar em cubículo e sair carregando os móveis numa carroça de um lugar para outro, meio andarilho.
Mas a gente tinha um ao outro, entendeu?
Então a família foi ficando. Afinal de contas, era a família. Mas só no sangue não tinha um laço, um laço familiar real.
Esse laço de família eu vim, de fato, conhecer com a Vera.
Vera Lúcia Themótheo.
Éramos tão diferentes, mas, ao mesmo tempo, alguma coisa atraía.
A relação que tínhamos era uma relação puramente de amizade. Era algo que eu só descobri pela primeira vez na minha vida: que existiam seres que se importavam com a gente.
E ela tinha tempo para tudo, né? Incrivelmente como a Vera sempre foi ativa.
Além dos detalhes, conhecer a minha família e tal... À medida que a gravidez ia acontecendo, a gente se juntava, a gente se unia cada vez mais. É como se todas as nossas vidas independentes continuassem sobrevivendo, mas passamos a ser praticamente ela e eu, eu e ela.
Eu lembro como se fosse hoje.
Quando a Vera entrou em trabalho de parto, estávamos na porta do antigo Mappin — eu acho que era assim o nome da loja —, uma daquelas lojas grandes em frente ao Teatro Municipal.
Eu ficava de um lado, ela ficava do outro. Minha velha trabalhou até o último dia da gravidez em São Paulo.
E eu não entendia de nada, mas tentava passar uma segurança que nem eu mesmo tinha, né?
Eu acho que ela era muito mais adulta que eu e sabia disso. Afinal, eu tinha 17 anos. Era muito novo. Uma criança adulta, levada ao amadurecimento em função dos fatos ocorridos.
Sim, a gente não teve uma infância para chamar de infância, né?
A gente teve uma sequência de fatos que aconteceram, que nos levaram para lá, que nos trouxeram para cá. Uma mistura de cultura, mistura de religião, mistura de política.
A gente nunca teve uma vida plena, vamos dizer assim.
Eu só senti isso ao lado da Vera.
Ela conseguiu me proporcionar tudo isso.
Foram talvez sete a oito anos vivendo juntos.
Enfim, nós estávamos ali na Xavier de Toledo, no centro de São Paulo, cada um de um lado da rua com carrinho de Yakult. Ela tentou dizer para mim que a bolsa dela tinha estourado porque eu não estava entendendo era nada, né?
Quando eu consegui ouvir, para tudo! Sai tudo correndo!
É aquela cena da maternidade São Paulo, alguma coisa assim... Eu não sei como nós chegamos no hospital. Não me lembro onde ficaram os carrinhos, nossas coisas...
Enfim, Raquel nasceu.
Depois que Raquel nasceu, ai, meu Deus... A vida deu uma virada em nossas vidas.
A gente foi morar, se eu não me engano, na Bela Vista.
Enfim, o que eu estou tentando dizer é que a Vera foi a primeira pessoa da minha existência, da minha vida, que me deu vida enquanto eu estava perdido tentando me encontrar.
Alguém que não tinha exatamente nada ganhou uma vida.
À época, a filha da Vera não podia viver uma vida assim. Tinha que ter um nome no seu registro. E eu devia essa honra a mim mesmo e a todos os homens que fazem filhos e, de alguma forma, não assumem a sua responsabilidade.
E eu mesmo, sendo uma pessoa da diversidade, consegui assumir a paternidade da Raquel.
E aquilo também foi um orgulho tão grande...
Foi o ato mais lindo da minha vida, né?
Assumir uma paternidade quando nem eu sabia o que era paternidade.
Mas a natureza é tão perfeita, né?
A Vera, protetora, sempre muito protetora. Protegia a mim, protegia Raquel, protegia todo mundo em volta dela.
Olha, uma coisa maravilhosa.
Não lembro realmente. Tem passagens do tempo que eu não me lembro. São tantos anos e eu sou péssimo para gravar momentos.
Eu não me recordo de muita coisa.
Recordo que, nos momentos que passamos juntos, chegamos a morar ali na Saúde, à época em que eles alugavam aqueles quartinhos, né, com banheiros coletivos. Um lugar até bacana. Moramos naqueles cortiços da Bela Vista.
E eu não sei que rumo levou a vida que nos separamos.
Nunca fomos, no sentido literário da palavra, como muita gente prefere dizer, marido e mulher. Nunca.
Eu não sabia nem o que era isso.
Mas eu encontrei em Vera, inconscientemente, uma amiga, uma mãe, uma avó, uma tia, uma proteção que jamais tinha tido antes.
Talvez tenha sido o primeiro lugar em que eu tenha, de fato, me sentido seguro fora do ventre. Porque mesmo o ventre tumultuado, ainda assim, era um lugar seguro, né?
E essa segurança eu só sentia ao lado dela.
Mesmo quando seguimos por caminhos separados, ainda assim nunca deixamos de nos falar. Ela nunca deixou de me visitar. Algumas vezes eu cheguei na casa dela no interior de São Paulo. Acompanhei algumas coisas do crescimento da Raquel.
Mas o amor dela por mim era tão forte, mas tão forte, que ela me deixou ser livre.
Deixou eu ser eu mesmo.
Deixou eu seguir meu caminho.
Porque tínhamos consciência de que, embora dependêssemos um do outro para nos fortalecer, éramos completamente diferentes. Vínhamos de caminhos diferentes, tínhamos histórias diferentes.
E as nossas histórias se cruzaram, se fortaleceram, para que pudéssemos ter forças para continuar.
E assim o fizemos.
Raquel cresceu.
Eu lembro do dia do nome. Foi o dia mais engraçado, né? Porque a Vera queria colocar o nome da Raquel de Sara. Aí eu não gostei do nome porque achei que ia virar bullying na escola.
Sara Fernanda?
O nome Fernanda era simplesmente algo na cabeça da Vera. Não importava o nome que a Raquel tivesse, contanto que tivesse Fernando no meio.
Aí aquela discussão toda dentro do cartório:
“Não, não vai botar Sara, não! Sara, não, que vão ficar tirando sarro da cara da menina. Ela vai sofrer bullying. Sara Fernanda? Fernanda? Ela por acaso está doente?”
Então o nome Sara conseguimos tirar.
Aí tira daqui e tira dali, o nome daqui, o nome dali...
Finalmente a Vera encontrou a palavra Raquel.
Pronto.
Decidimos o nome da Raquel.
A Raquel seria chamada de Fernanda Raquel.
Toda essa discussão: Fernanda Raquel, Fernanda Raquel...
Toda essa discussão no cartório. Foi uma hora para registrar Raquel lá na Cerqueira César.
Aí vem a outra discussão.
Olha só o universo da cabeça de duas pessoas para registrar uma criança.
Eu não queria que o nome Cabral da Silva entrasse no nome da menina, porque aquilo representava minha família e eu estava lutando contra tudo que a minha família fez durante séculos: esse plano de gerar filhos e colocar no mundo sem responsabilidade.
E isso representava muito bem a minha família Cabral, que, na minha época, a gente não dividia família Cabral e família Silva. Para nós era uma coisa só.
Então Cabral da Silva era uma mancha na minha biografia como ser humano, como pessoa. Não tinha nada a ver comigo.
Eu tinha que lutar contra aquilo, né?
Botar filho no mundo, gerar filhos inconsequentemente, irresponsáveis...
E aquele momento era um momento de eu dizer que eu estava lutando contra aquilo.
Então jamais eu queria colocar na Fernanda Raquel o sobrenome Cabral da Silva. Deixava apenas o sobrenome da Vera, que era Themótheo.
Não...
A Vera não quis.
Tinha que entrar o Cabral.
“Tinha que entrar o Cabral!”
“Tinha que entrar o da Silva?”
“Não, não, vamos tirar o da Silva, então. Deixa só o Cabral.”
“Não, não! Vai ter que entrar o nome todo. É para colocar o nome da Raquel todo.”
Tá.
Mas o nome dela ficou assim:
Fernanda Raquel Themótheo Cabral da Silva.
Para abreviar, a gente chamava de RTC.
Olha, foi muita discussão para colocar o nome dessa criança!
A gente tinha até esquecido o que estava fazendo ali, as razões que cada um de nós estava ali lutando.
A Vera querendo dar nome a alguém que ela amava, alguém que ela entendia, alguém que a entendia. Talvez até ela tivesse sonhos por nós dois vivermos juntos eternamente.
E eu estava ali por uma outra causa, para além dessa: a causa de dizer ao mundo que eu estava fazendo exatamente o oposto do que a minha família fez, dando nome a uma criança, embora não fosse minha.
Mas era como se tivesse sido parte de mim.
Eu lembro do primeiro banho da Raquel numa bacia dessas, bacia de fazer salada, de plástico, né?
A Raquel era tão linda, mas era tão linda...
Gordinha, carequinha, aquela coisa bonitinha, sabe?
Era um negócio que não dava para explicar.
Eu estava verdadeiramente encantado. Parecia, para mim, um ser divino que tinha chegado.
E eu com aquela jovem realidade de menino novo, 17 para 18 anos, olhava para Raquel encantado.
Olha, não tem palavras para dizer o quanto aquela criança brilhava aos meus olhos.
Aquele momento é o momento mais marcante da minha vida, que até hoje, quando eu me lembro de cada minuto, eu sobrevivo.
Eu me emociono.
Na minha cabeça, a Fernanda Raquel ainda é aquela menininha que eu vi nascer dentro do hospital, que a gente correu pelos corredores do hospital para lá e para cá.
Eu vi a Raquel pelo vidro pela primeira vez quando ela nasceu.
Fiquei olhando aquela carinha toda enrugadinha, né?
Enfim...
Olha, eu me senti um super... super o quê?
Eu não sei.
Mas eu lembro que as emoções daquele momento marcaram toda a minha vida.
E hoje estamos em 2026. Já se passaram sei lá quantos anos.
A gente nunca deixou de se falar.
Tinha uma frase que a Vera repetia sempre quando ela mandava os cartões para mim. Naquela época a gente mandava cartão postal um para o outro, né? E tinha as Edições Paulinas, que produziam cartões.
E a Vera sempre mandou uma frase para mim:
“Deus nos permite as trevas, para que descubramos o valor da luz.”
Por diversas vezes ela mandou essa frase para mim.
Eu nunca entendi o que queria dizer.
Até porque eu preferia acreditar que o Deus a que ela se referia era a força que existia naquela mulher.
A força da renovação.
A força de denunciar.
A força de se autoguiar.
A força de criar um mundo dentro de um mundo tão caótico, para que pudéssemos, juntos ou talvez separados, caminharmos em segurança com a nossa Raquel.
Então, quando a gente sonha com o mundo, ainda que lindo dentro de toda a sua caoticidade, dentro dos seus tumultos, esse mundo tumultuado passa a ter brilho, passa a ter luz diante do Deus que existe dentro de nós.
Então essa era a visão que eu tinha daquela frase que ela, por tantas vezes, repetiu:
“Deus nos permite as trevas para que descubramos o valor da luz.”
E houve momentos em que nós fomos às trevas.
Momentos em que parecia que tínhamos ido ao inferno e voltado — apesar de eu não acreditar nem em inferno nem em céu.
Nós nos perdemos.
Nós caímos.
Nós levantamos.
Houve um momento particularmente difícil da minha existência em que meu mundo caiu. E Vera estava lá.
Mais uma vez.
Vera estava comigo.
E, no meio de tudo aquilo, quando eu ainda tentava entender o que estava acontecendo comigo e havia tanta coisa ao meu redor, a imagem que permaneceu na minha memória foi Raquel.
A luz.
Mais uma vez, o nosso Deus interno nos permitiu as trevas para que descobríssemos o caminho da luz.
E eu voltei.
A partir dali passei a ser uma nova pessoa. Passei a ver a vida com mais responsabilidade. Passei a viver cada minuto da vida.
Depois, os caminhos da vida nos levaram para lugares diferentes. Passamos períodos sem nos falar.
Mas eles nunca se desconectaram da minha existência.
Porque eles são a minha existência.
São a minha razão de viver.
Sempre foram.
Raquel sempre foi a luz do caminho que, outrora, foi cheio de obstáculos, cheio de escuridão.
Ela foi a luz das nossas vidas.
Principalmente da minha.
Na cabeça da Vera, talvez essa frase — “Deus nos permite as trevas para que descubramos o valor da luz” — devesse ser alguma coisa no campo religioso, né? Alguma frase de Bíblia ou coisa parecida.
Já na minha cabeça, na cabeça de quem de religião não entende exatamente nada, porque em menos de dez anos eu passei por todas as religiões possíveis e imaginárias...
É óbvio, né?
Se você não tem cultura, não tem conhecimento, não tem uma vida plantada...
Eu comecei pelas Testemunhas de Jeová, depois fui para religiões de matriz africana, passei... Enfim, carregado por todas.
Eu participei de várias religiões, mas nunca me identifiquei com nenhuma.
Porque eu sempre acreditei no Deus que existe dentro de cada um de nós.
Isso é algo que eu aprendi muito cedo.
Sobreviver no caos nordestino nos anos 70 era algo realmente muito forte.
Então eu acreditei que o Deus a gente busca dentro de nós mesmos.
E eu precisei encontrar muitos dos meus deuses da minha infância para que pudesse conseguir chegar até a vida adulta.
Então, quando a Vera dizia para mim:
“Deus nos permite as trevas para que descubramos o valor da luz”,
ela estava dizendo para mim que, por mais caótica que fosse a vida, por mais tumultuada que fosse a vida, por todos os problemas e obstáculos que a vida nos colocou, a gente junto poderia criar um caminho para chegar até a luz.
Isso é realmente maravilhoso.
E a Raquel tem sido a luz da nossa vida durante todos esses anos.
Mesmo que não estejamos debaixo do mesmo teto, debaixo da mesma rua, debaixo da mesma cidade, ela é o ar, é o pensamento que glorificamos todos os dias quando a gente acorda.
A gente acorda: “Como é que será o dia hoje?”
A gente pensa na Raquel.
Ela mora numa cidade, eu moro em outra, mas, dentro desse universo separado, ela está todos os dias dentro do meu imaginário.
É o Deus da minha nova era.
Raquel é o Deus da nossa nova era.
A Raquel teve essa simbologia na minha vida e passou a ser o Deus que eu vivo, o Deus vivo do qual eu vivo ao lado.
Seguimos caminhos diferentes, somos completamente diferentes, vivemos em culturas diferentes, mas ela continua, ainda assim, sendo meu Deus.
Porque foi através dessa luz que saímos das trevas para caminhar até a luz.
Então a Raquel nos permitiu sair da escuridão.
O Deus que existia dentro de nós simplesmente nos permitiu as trevas para que nós descobríssemos o valor da luz.
E hoje, aos 61 anos, a Raquel continua sendo minha luz.
Se eu tivesse que idolatrar um santo, digamos assim, né, essa coisa de idolatração, seria Raquel.
Eu fico olhando as fotos dela, fico olhando as postagens dela na internet, fico olhando essa beleza.
Aquelas são as imagens que ela quer que nós vejamos dela.
Então a minha idolatria, que se acompanha ao longo de toda a minha vida, vai com base nas informações e imagens que eu recebo.
Raquel mostra para o mundo que ela é uma mulher que está com seu esposo, com seus filhos, com Miguel, com Milena, ao lado da mãe, ao lado dos irmãos, ao lado dos parentes do esposo dela.
Então esse é o universo que ela coloca na rede.
Esse é o universo que eu idolatro, porque é assim que ela quer que nós a vejamos.
Então, dentro da visão dela, eu todos os dias aplaudo em pensamento seus atos, seus fatos, sua existência.
Porque ela foi a luz que nos permitiu sair das trevas e chegar até aqui.
Foi a luz do nosso caminho.
Todas as vezes que nós pensávamos em algo errado, a gente pensava na Raquel.
Toda vez que a gente ia fazer alguma coisa, a gente pensava: Raquel.
Então a Raquel, de fato, foi a luz das nossas vidas durante toda a nossa vida.
Mesmo que não estivesse conosco, era o ar que nós respirávamos, era a estrela do nosso universo.
Pois bem.
Essa é a Vera da minha vida.
Vera Lúcia Themótheo.
Fisicamente, já não estávamos juntos. Estávamos separados havia muitos anos. Acho que desde que o Miguel nasceu. Eu acho que a gente já não se via pessoalmente há uns 12 para 13 anos. Acho que por aí.
Não sei.
Mas a gente nunca deixou de se falar.
Nunca deixou de trocar receita de bolo.
A gente foi amigo a vida inteira.
Muito cúmplice de nós mesmos.
Então eu não sei o que quer dizer amor.
Eu nunca amei ninguém.
Talvez esse seja realmente o significado de um amor, no sentido inconsciente da complexidade do que é o seu amor.
Não como rótulo ou como palavras ditas e repetidas por milhões de vezes, e sim um carimbo de um sentimento que não precisa ter nome para ser sentido.
Não precisa ser rotulado para ser vivido.
É algo que, por toda minha vida, será marcado.
Agora são 9h36 da manhã.
Eu tenho apenas uma foto.
Acabei de recebê-la via WhatsApp. Nem li o que estava escrito na foto. Olhei apenas a beleza da luz que ilumina minha vida até hoje, independentemente de onde esteja fisicamente.
Olhei para a foto da Vera.
Muito bonita.
Com os mesmos laços dos quais tenho, memoravelmente, lembrado sempre e para sempre.
Tomei a liberdade de retirar da nota de pesar que recebi apenas a imagem. Não reescrevi o texto. Só retirei a imagem sem o texto.
Porque eu queria olhar para Vera.
Vocês devem ter observado que, durante todo este texto, quando volto àquele tempo, o sobrenome aparece como ele nasceu comigo: Cabral, com C.
Com o caminhar dos anos, eu fui entendendo que, de alguma forma, precisava me distanciar daquele sobrenome pelas próprias razões que contei aqui. Cabral da Silva carregava, dentro de mim, uma história da qual eu não queria continuar fazendo parte daquela mesma maneira.
Eu não podia mudar o sobrenome que recebi. Mas podia escolher o significado que ele teria dentro de mim.
E foi assim, talvez primeiro no meu inconsciente, que Cabral começou a se transformar em Kabral.
O C deu lugar ao K.
Não para negar de onde eu vim. Minha história está toda aqui. Não tenho como apagá-la e nem quero.
Mas para deixar de pertencer, dentro do meu universo de pensamento, àquela casta de Cabral, especialmente Cabral da Silva, contra a qual eu já lutava quando estava naquele cartório, ainda tão jovem, discutindo o nome que seria dado à Raquel.
Talvez o Kabral com K tenha começado a nascer justamente ali, mesmo que eu ainda não soubesse.
Porque assumir aquela criança era também dizer que eu poderia fazer diferente.
E, no caminhar dos anos, nasceu definitivamente Fernando Kabral, com K.
Uma nova realidade dentro do meu universo de pensamento, onde a gente aprende a amar a si próprio para que possamos nos amar coletivamente.
Hoje, olhando para toda essa caminhada e olhando para Vera, eu consigo compreender um pouco melhor.
Cabral com C pertence à história que me trouxe até aqui.
Kabral com K é a pessoa que eu escolhi ser.
E hoje, domingo, 30 de agosto de 2026, eu recebo a notícia da morte física da Vera.
Porque Vera jamais vai morrer.
Hoje parte de mim vai junto com a Vera, mas os nossos momentos juntos foram incrivelmente maravilhosos.
O Deus que nos permitiu sempre tantas trevas ao longo dos nossos anos também nos encaminhou para a luz e nos trouxe a paz, nos trouxe uma vida.
Embora tenhamos muitas trevas, ainda assim temos sempre a luz ao fim do nosso sonho.
Temos luz.
Temos os obstáculos para descobrir o valor da luz.
Então essa foi a frase que mudou minha vida durante toda a minha vida e que tem mudado até hoje:
“Deus nos permite as trevas para que descubramos o valor da luz.”
Vera continua viva enquanto eu existir.
Vera será viva dentro de mim como sempre foi.
Porque ela é minha vida.
Ela é minha existência.
Ela é meu porto seguro.
A Vera é o Deus que me permitiu as trevas para que eu descobrisse o valor da luz.
Vera está aqui agora.
Presente.
Sempre e para sempre.
Fernando Kabral, com K.
#VeraLuciaThemotheo #VeraLuciaPresente #fernandokabral #Memorias #HistoriaDeVida #Amizade #Gratidao #Luz #PresenteSempre #DeusNosPermiteAsTrevas
Comentários
Postar um comentário