PERFEIÇÃO — 33 ANOS DEPOIS, O BRASIL DIANTE DA BALANÇA Perfeição, de Renato Russo: as contradições do Brasil e a escolha eleitoral de 2026
PERFEIÇÃO — 33 ANOS DEPOIS, O BRASIL DIANTE DA BALANÇA
Perfeição, de Renato Russo: as contradições do Brasil e a escolha eleitoral de 2026
6 de outubro de 2026
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Em 1993, Renato Russo cantou “Perfeição”.
Não era exatamente uma celebração.
Era uma provocação.
Uma ironia quase cruel.
Renato Russo olhava para as nossas contradições e fazia uma coisa genial: convidava o Brasil a celebrar justamente aquilo que deveria fazê-lo parar e pensar.
Trinta e três anos depois, eu olho para o Brasil de 2026 e me pergunto: afinal, o que mudou?
Vamos colocar os dois lados dessa história numa balança imaginária.
De um lado está um campo político que hoje tem na família Bolsonaro uma de suas maiores expressões. Jair Bolsonaro foi condenado definitivamente por tentativa de golpe de Estado. Eduardo Bolsonaro também foi condenado pelo Supremo. Michelle Bolsonaro acaba de ser eleita senadora. Outros integrantes da família também conquistaram mandatos. E Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno da eleição presidencial na primeira colocação.
E aqui eu preciso acrescentar mais peso a esse prato da balança.
Porque não estamos falando apenas de um sobrenome.
Estamos falando de uma família que espalhou seus integrantes pela política brasileira.
Michelle Bolsonaro foi eleita senadora pelo Distrito Federal.
Carlos Bolsonaro foi eleito senador por Santa Catarina.
Jair Renan Bolsonaro foi eleito deputado federal por Santa Catarina.
Renato Bolsonaro, irmão de Jair Bolsonaro, foi eleito deputado federal por São Paulo.
E Flávio Bolsonaro disputa agora a Presidência da República.
Outros parentes também estiveram nas urnas.
Eu havia chamado isso de fisiologismo e pensei também em nepotismo.
Mas faço aqui uma distinção importante: juridicamente, eleição de parentes pelo voto popular não é o nepotismo proibido pela legislação.
Mas isso não elimina a pergunta política que me inquieta:
até que ponto é saudável para uma democracia ver uma mesma família ocupando tantos espaços de poder?
E quando eu falo em colocar os dois lados na balança, não quero colocar apenas os nomes.
Quero colocar também os projetos.
Porque Flávio Bolsonaro não chega ao segundo turno apenas carregando um sobrenome.
Ele apresenta um projeto de governo.
Seu programa fala em reduzir ministérios e despesas administrativas, retomar privatizações, fazer reformas fiscal e tributária, rever aspectos da legislação trabalhista e da Previdência, ampliar escolas cívico-militares e fortalecer a participação da iniciativa privada em diferentes áreas.
E existe uma diferença que toca diretamente a vida do trabalhador.
Enquanto existe no país uma luta pela redução da jornada de trabalho e pelo fim da escala seis por um, Flávio Bolsonaro se posicionou contra o fim da escala seis por um nos termos defendidos atualmente.
É aí que a minha balança começa a pesar.
Porque política não é apenas sobrenome.
Política não é apenas discurso.
Política chega ao salário.
Chega à aposentadoria.
Chega à jornada de trabalho.
Chega à escola.
Chega ao posto de saúde.
Chega à comida colocada na mesa.
O PL saiu das urnas com 121 deputados federais. Elegeu 19 senadores e terá 28 a partir de 2027.
Não é pouca coisa.
É uma mudança profunda na correlação de forças do Brasil.
Agora vamos olhar para o outro prato dessa balança.
Nos governos Lula, o Brasil criou e ampliou políticas de transferência de renda, abriu as portas das universidades para parcelas da população que durante séculos ficaram do lado de fora, ampliou políticas de habitação, valorização do salário mínimo, combate à fome e inclusão social.
Em 2005, o Brasil liquidou antecipadamente sua dívida com o FMI.
Em 2025, voltou a sair do Mapa da Fome. Em 2026, a ONU confirmou que o país continuava fora dele.
Não estou dizendo que o governo Lula seja perfeito.
Não existe governo perfeito.
E talvez seja exatamente por isso que o título daquela música continue tão atual.
“Perfeição” nunca falou de um país perfeito.
Falou, ironicamente, de um país capaz de conviver com suas imperfeições como se fossem parte da paisagem.
Ainda existe pobreza. Ainda existe desigualdade. Ainda existe violência. Ainda existe gente esperando por direitos que deveriam ter chegado há muito tempo.
Mas é exatamente aí que começa a minha inquietação.
Quando caminho pela periferia e encontro gente pobre, trabalhador, negro, LGBT, gente que conseguiu estudar, comer melhor, entrar numa universidade ou acessar uma política pública construída justamente para diminuir desigualdades, e vejo parte dessa mesma população escolhendo um projeto político que eu considero contrário a essas conquistas, eu volto a Renato Russo.
E digo mais.
É aqui que, para mim, aparece a imagem mais incômoda dessa balança.
É o trabalhador decidindo sobre um projeto que poderá mexer justamente com seus direitos.
É quem depende do serviço público escolhendo qual projeto administrará esse serviço.
É quem depende da aposentadoria escolhendo quem discutirá as regras da Previdência.
É quem trabalha seis dias para descansar um escolhendo também qual posição prevalecerá nessa discussão.
Na minha leitura, existe gente votando contra os próprios interesses.
É como entregar à raposa a responsabilidade de tomar conta do galinheiro.
E o mais desconcertante é que, numa democracia, a raposa não precisa derrubar a porta.
Ela pode receber a chave pelo voto.
“Perfeição” deixa de parecer uma música de 1993.
Parece uma fotografia de 2026.
E então a ironia de Renato Russo ganha uma atualização que ele jamais poderia ter imaginado.
Vamos celebrar a ignorância que ganhou Wi-Fi, câmera e algoritmo.
Vamos celebrar a mentira que antes precisava correr de boca em boca e agora atravessa o Brasil em segundos.
Vamos celebrar a memória curta.
Vamos celebrar a desinformação vestida de opinião.
A intolerância vestida de coragem.
O preconceito vendido como liberdade.
E a perda de direitos anunciada como modernização.
Vamos celebrar o trabalhador defendendo mudanças que podem alcançar seus próprios direitos.
Vamos celebrar quem depende do Estado convencido de que o problema é simplesmente a existência do Estado.
Vamos celebrar a política transformada em sobrenome, herança e projeto familiar de poder.
Que perfeição.
Em 1993, as contradições brasileiras estavam nas ruas, nos jornais, na televisão e no rádio.
Em 2026, nós fizemos melhor.
Colocamos as contradições no bolso.
Demos a elas um celular.
Conectamos à internet.
Entregamos ao algoritmo.
E ainda apertamos compartilhar.
Trinta e três anos de tecnologia.
E algumas contradições continuam assustadoramente reconhecíveis.
E aqui faço uma provocação ainda mais incômoda.
A história cristã conta que, diante de Jesus e Barrabás, a multidão pediu a libertação de Barrabás.
Não estou dizendo que Lula seja Jesus nem que seu adversário seja Barrabás.
Estou falando da simbologia da escolha.
Jesus caminhava entre pobres, excluídos, doentes e marginalizados. Dividia o pão. Confrontava poderes estabelecidos. E, mesmo assim, diante daquela escolha narrada pelos Evangelhos, a multidão se voltou contra ele.
O povo escolheu Barrabás.
E essa é justamente a provocação.
Não porque alguém seja obrigado a escolher aquilo que eu escolheria.
Mas porque a democracia também permite que uma sociedade escolha caminhos que, na minha leitura, podem atingir os próprios interesses de quem fez aquela escolha.
Dois mil anos depois, essa imagem ainda me perturba.
Porque uma democracia também permite que um povo escolha caminhos que podem atingir seus próprios direitos.
E talvez seja essa a parte mais dura de aceitar.
No primeiro turno de 2026, Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos. Lula recebeu 45,16%.
Agora estamos diante do segundo turno.
E não estamos escolhendo apenas dois homens.
Estamos escolhendo projetos de país.
Estamos decidindo que Brasil queremos deixar depois de nós.
Para mim, essa escolha envolve decidir se continuamos ampliando direitos e oportunidades para quem historicamente ficou do lado de fora ou se entramos num caminho que considero de retrocesso.
E existe ainda uma questão maior.
Mesmo que Lula vença, o Brasil que sairá das urnas será outro.
O PL terá a maior bancada da Câmara e do Senado. A direita ampliou enormemente sua força no Congresso.
Portanto, para mim, a luta não termina no dia da eleição.
Talvez ela esteja apenas começando.
Renato Russo olhou para o Brasil de 1993 e transformou nossas contradições em ironia.
Em 2026, talvez a maior ironia seja perceber que “Perfeição” envelheceu trinta e três anos...
e o Brasil retratado por aquela provocação nem sempre envelheceu junto com ela.
Existe uma balança diante de nós.
E cada brasileiro terá de colocar nela sua memória, sua consciência, seus direitos, sua história e o país que pretende deixar para quem vem depois.
Depois, votar.
Porque a democracia nos dá inclusive o direito de escolher contra nós mesmos.
E talvez essa seja a provocação mais dolorosa de “Perfeição” 33 anos depois:
o povo também escreve a história.
Inclusive quando escolhe repeti-la.
Que perfeição.
Fernando Kabral
6 de outubro de 2026
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