Da Prancheta à Inteligência Artificial: a história das pesquisas eleitorais em campo no Brasil
Da Prancheta à Inteligência Artificial: a história das pesquisas eleitorais no Brasil
Li recentemente um comentário dizendo que determinada pesquisa era "uma grande mentira".
Aquilo me fez lembrar de uma vida inteira trabalhando com pesquisa de mercado e opinião pública.
Resolvi contar um pouco dessa história.
Antes de continuar, uma observação. Não acho que quem faz esse tipo de comentário esteja agindo de má-fé. Muito pelo contrário. A maioria das pessoas simplesmente não conhece como funciona uma pesquisa por dentro. Nunca viu uma sendo feita, nunca conversou com um pesquisador de campo e nem imagina quantos trabalhadores existem até um resultado chegar ao jornal, à televisão ou à internet.
Foi exatamente esse comentário, tão espontâneo quanto milhões de outros que vemos todos os dias, que despertou em mim a vontade de contar um pouco dessa profissão tão invisível.
Muita gente imagina que uma pesquisa nasce dentro de um computador.
Não nasce.
Pesquisa nasce na rua.
Nasce quando um trabalhador acorda cedo, pega uma prancheta e vai conversar com pessoas de verdade.
Eu comecei no IBOPE.
Para quem é mais novo talvez nem imagine o tamanho que o IBOPE representava naquela época. Foi uma verdadeira escola de pesquisadores. Depois trabalhei também na Folha de São Paulo, no setor que viria a ser conhecido como Datafolha, além de participar de trabalhos para outros institutos, inclusive internacionais, como o Gallup.
Era um tempo completamente diferente.
Não existia internet.
Não existia celular.
Não existia tablet.
Muito menos inteligência artificial.
Quando comecei, muitas entrevistas eram feitas em pequenos formulários de papel. Em algumas regiões usávamos até papel de embrulho, daqueles vendidos em rolo nas antigas mercearias. A prancheta de papelão, a caneta e a memória eram nossas ferramentas de trabalho.
Depois vieram os questionários impressos.
Depois os computadores.
Mais tarde os tablets.
Hoje boa parte das pesquisas já nasce digital.
Mas a essência continua exatamente a mesma.
Alguém precisa sair de casa para ouvir pessoas.
E quem faz isso continua sendo o trabalhador.
Passei boa parte da minha vida viajando pelo Brasil.
Manaus.
Paraná.
Santa Catarina.
Mato Grosso.
Comunidades.
Capitais.
Interior.
Zona rural.
Fazendas.
Bairros populares.
Bairros de classe média.
Já atravessei cidades inteiras a pé.
Já caminhei quilômetros entre uma fazenda e outra porque simplesmente não existia transporte.
Já corri de cachorro.
Esperei boiada passar.
Andei de barco.
De ônibus.
De avião.
Em muitos projetos, passávamos dias, semanas e até meses, longe de casa fazendo pesquisa de campo.
Sentindo saudade da família.
Era a rotina de milhares de pesquisadores.
Pouca gente sabe, mas antes dos call centers existirem, as próprias companhias telefônicas instalavam várias linhas telefônicas na casa dos pesquisadores.
Na minha chegaram a instalar cinco linhas ao mesmo tempo.
Quando surgia uma pesquisa urgente, principalmente política, aqueles telefones tocavam sem parar.
As entrevistas precisavam seguir uma amostragem rigorosa.
Sexo.
Faixa etária.
Classe social.
Escolaridade.
Região.
Bairro.
Nada era feito de qualquer jeito.
Existia toda uma metodologia por trás daquele trabalho.
E depois da coleta ainda vinha outra etapa gigantesca.
Supervisão.
Checagem.
Codificação.
Digitação.
Conferência.
Análise estatística.
Processamento.
Relatórios.
Uma pesquisa passa pelas mãos de muita gente antes de ser publicada.
Tive um chefe japonês que nunca esqueci.
Chegava de chinelo de dedo, camiseta simples e calça desbotada. Quem olhava de longe jamais imaginava que aquele homem comandava operações enormes de pesquisa. Muitas vezes ele chegava de helicóptero.
Na parede da sala havia um enorme mapa do Brasil.
Quando perguntávamos onde seria o próximo trabalho, ele pegava um alfinete de cabeça vermelha, mirava o mapa e lançava.
Onde o alfinete caísse, ele dizia:
— Quero você lá.
E nós íamos.
Às vezes era no meio da Amazônia.
Às vezes no interior do Sul.
Às vezes numa comunidade distante.
Não importava.
A missão era ouvir pessoas.
Mas a maior lição que ele nos deixou nunca foi sobre estatística.
Foi sobre honestidade.
A resposta do entrevistado era sagrada.
Não podia ser alterada.
Não podia ser melhorada.
Não podia ser interpretada.
Tinha que ser registrada exatamente como foi dada.
Essa sempre foi a alma da pesquisa.
Hoje todo mundo fala em Big Data.
Ciência de Dados.
Inteligência Artificial.
Mas pouca gente lembra de onde nasceu boa parte dessa informação.
Ela nasceu muito antes dos computadores aprenderem.
Nasceu quando milhares de pesquisadores percorreram o Brasil inteiro ouvindo pessoas.
Cada formulário preenchido.
Cada entrevista realizada.
Cada dado coletado.
Durante décadas.
Quem sabe, hoje, a Inteligência Artificial processa bilhões de informações em segundos.
Mas alguém precisou produzir essas informações.
E uma parte dessa história passou pelas mãos de trabalhadores anônimos que carregavam uma prancheta debaixo do braço.
Por isso, quando alguém diz simplesmente "essa pesquisa é mentira", eu prefiro acreditar que essa pessoa apenas não conhece como esse trabalho funciona.
E tudo bem.
Ninguém é obrigado a conhecer.
Mas conhecer a história por trás das pesquisas talvez nos ajude a compreender que, antes de existir um gráfico na tela, existe uma enorme cadeia de trabalhadores que percorre ruas, estradas, comunidades e cidades inteiras para ouvir pessoas de verdade.
Eu tive o privilégio de fazer parte dessa história.
E confesso uma coisa.
Tenho muito orgulho disso.
Julho de 2026
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